top of page

​O projeto literário nasce da necessidade de refazer a recente jornada de perda momentânea da sanidade mental e o reencontro comigo mesma. O livro é uma carta aberta à mim e aos meus afetos, uma espécie de diário em que relato os momentos mais obscuros das Sombras, passando pelo processo de Cura até chegar à Luz.

 

O livro/ diário é dividido em três partes, que retratam o meu processo e a forma como percebi cada uma das fases pelas quais atravessei. Em cada capítulo, busco elucidar essa minha jornada e resgatar as minhas experiências, ora em forma de poesia, ora em prosa poética.

 

O leitor é guiado por esta trajetória de maneira afetuosa, apesar da narrativa crua. Trago referências de minhas crenças religiosas, de minha relação com minha mãe e com outros personagens que tiveram presença marcante nesse processo - seja para o bem, ou para o mal.

 

Trata-se também de um projeto imagético, por isso, as ilustrações e colagens produzidas por mim são essenciais para contar essa história. Elas são tão importantes quanto às palavras, pois ajudam a traduzir a minha história, imprimem ritmo, cadência, ao mesmo tempo em que revelam fragmentos de meu inconsciente.

Espero que a leitura inspire mergulhos profundos e despertares.

E que os bons ventos nos guiem sempre!

 

Laroyê!

Apresentação

Um mergulho no abismo de feminilidades, cantos e belezas, ora oníricas, ora concretas, de Luana Dalmolin. Com uma atmosfera Hilstiana, permeado por uma escrita potente e imagens reveladoras, o projeto literário  “Olhos fechados, só se for para intencionar bons ventos”, nos capta completamente, sem perder a sutileza. 

 

Sombrio e confessional, o começo da obra nos leva aos escombros da alma da autora, com detalhes expostos e uma poesia íntima. Suas imagens recortadas, afogadas, transportam o leitor imediatamente para o subconsciente e águas mais profundas de si mesmos. Ofegante e urgente.

 

A partir daí, viajamos junto com a personagem/autora e acompanhamos sua jornada poética. Como assim começamos de fato a nos despir de alma, de ânimo, de vida, sem nem perceber? Em que ponto começamos a perder a sanidade?   

 

“Ninguém bagunça a sua casa se você não der a chave”, grita a autora, pela voz de Exu. Com a força de milhares de luas cheias, com o maior abraço que consegue dar em si mesma, ela coloca tudo na mesa. Sem medo. Narra sua queda. Sua fuga. Sua derrota. Com imagens-espelho, palavras e temas, caímos junto com ela, rezando, chorando.

 

A partir daí, vem a cura. Tão feminina, a autora dança. Dança com as palavras, tira a dor para uma valsa. E vai mudando seu curso. Vai refazendo seus passos. Dissipando seus males, esculpindo com eles uma nova mulher. Que vem de seus desencontros, de suas mágoas. Que vem de todas nós. 

 

É hora de colher os frutos. Não apenas deste lindo livro. Mas os frutos de uma vida repleta de coragem de enfrentar as próprias sombras. Enxergo nesta obra todas nós, todas as mulheres que traçam linhas tortas e tintas parcas, e que no final se tornam lindas obras de arte. 

 

Com amor e muita gratidão,

 

Marina Franco

1. AS SOMBRAS​​

 

Da definição.

 

As sombras são como um oráculo sádico, onde habitam seres moribundos e odiosos, que intencionam o mal. O ódio impera como um rei seboso sentado em seu trono mofado de cores saturadas e sombrias. Num breu alucinante, no poço raso, onde se encontram as sombras ruidosas, o eu bélico permanece amarrado.  E então, o amargor e o ranço fazem morada.

 

Do que vivi.

Foi um longo período na sombra, no qual me perdi, a tal ponto de acreditar que não sairia mais daquele emaranhado, que me sufocou à quase morte. Cheguei a duvidar se dali emergiria, daquele lugar escuro e amedrontador.​Tenho certeza de que momentaneamente, perdi a sanidade.

Nos momentos mais alucinantes, rasgava roupas e livros,querendo mesmo era ter coragem para me rasgar inteira. 

 

Por vezes, encontrava certa paz em algum objeto, e ali com ele, permanecia por horas a fio, como se houvesse um grande segredo a ser desvendado. Torcia e retorcia, até que ele acabasse completamente desfigurado.

 

Em uma dessas crises, me deparei com minha mãe, que só soube ajoelhar e rezar.

 

Ela me disse depois que não era a sua filha quem estava ali. Os olhos eram duas cavidades ocas, não havia mais alma.

Mulher em preto e branco com um olho tapado pela sua mão.

É quando descemos até as profundezas de nossas próprias sombras, que os vampiros se aproximam para sugar cada gota de energia, vitalidade, brilho e, por fim, da vontade de viver.

 

A Fenda de Narciso (ou Carta a um Vampiro)

 

Tenho pensado nisso.
Naquilo que você fez e faz com cinismo.

 

Apontei, e então você não conseguiu ficar.
Partir é um momento, uma fenda no tempo. 

 

Mas repara só:

 

Essa fenda é também buraco,
que dá no fundo de um poço espelhado,
onde Narciso se prende
pra nunca mais.

 

bottom of page