top of page

A louca das cartas

  • Foto do escritor: Luana Dalmolin
    Luana Dalmolin
  • 20 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de jul. de 2025


Amor, I love, amor I love you, amor I love you...


Marisa Monte embalava com sua voz no rádio aquela madrugada de verão. Enquanto isso, ela disponha na calçada de paralelepípedo todas as cartas de amor, devidamente adornadas, cada uma a seu modo.

De quando em quando, parava para admirar a sua intervenção urbana e fazer um vídeo ou outro. As cartas formavam uma espécie de tapete, por onde ele iria passar dali a algumas horas, assim que o sol desse o ar de sua graça, logo nas primeiras horas do que viria a ser aquela manhã. Era alta madrugada, ela vestia baby doll preto de rendas brancas. Seus pés, descalços. Cabelos ao vento. Achou certa graça ao ver os vídeos e então se dar conta de sua aparência displicente. Logo ela, tão travestida de vaidades. 

Olhou ao redor e tudo parecia bem perfeito. O toque final foi o anel-aliança de capim dourado pendurado no fecho do cadeado do portão branco. E então com a cabeça rodando fez o seu pedido final: casa comigo?

Com os primeiros raios de sol vieram também as dúvidas. O efeito das duas garrafas de vinho tinto começava a baixar. 

Mãe, acorda, acorda! Acho que fiz uma besteira. 

Imaginou várias cenas. Algumas a faziam suspirar num delírio alucinante. Outras a faziam tremer de medo do julgamento que poderia vir - e, sim, ele veio feito galope.

Ficou conhecida como a louca das cartas.

Àquela altura, os vídeos, depois por ela deletados, não mais a tempo, já haviam sido visualizados. Dois palitinhos, essa é realidade implacável do aplicativo de mensagens. Fotos das cartas circulavam no tal grupo de mensagens do trabalho dele. Um burburinho constrangedor ganhava proporções. 

O silêncio sepulcral a dilacerava hora a hora. Foram tantas e longas horas naquele fatídico dia. As crises desaguaram, o quarto todo fora de lugar, enquanto ela se refastelava em um lama formada pela areia do vaso de plantas e água de banho mal tomado. 

Como ela poderia justificar aquilo tudo? Apelou para o pai de santo dele, pediu ajuda e a clareza dos búzios. Dobrou, triplicou as doses de quetiapina goela abaixo misturadas ao pó de pirlimpimpim que descia amargo goela abaixo.

Uma amiga sugeriu. Culpa dos astros. Você tem um mapa astral que imprime muita intensidade. O eixo do seu mapa é Touro e Escorpião, opostos complementares. Se por um lado, você anseia um amor pé no chão, por outro você quer a transformação e a profundidade.

Já o amigo de infância indicou que ela simplesmente fosse dormir - como se aquilo fosse possível… amanhã há de ser outro dia!

Às badaladas do sino da igreja, às 18 horas, ela não aguentou mais e passou a mão no telefone.

Ele riu. Ela implorou por perdão. Disse que daquele dia em diante, amaria quieta, quietinha. Naquela noite ao insistir em encontrá-lo, ela deu seu coração a ele. Uma joia humilde herdada de sua avó, que ele até hoje guarda no fundo da carteira embrulhada em um bilhete que diz: Ich liebe dich, mein schatz. E naquela mesma noite treparam na sala de estar do casal enquanto sangue escorria por entre suas pernas tingindo de carmim o piso frio. 

De regalo, levou um sutiã roxo de sua esposa que de quando em quando usa a seu bel prazer. Quanto aos amantes?  Seguem. Quanto às cartas de amor? Voltaram às suas mãos e hoje fazem parte de uma caixa de presente feita por ela em comemoração ao primeiro ano de namoro. As tais bodas de papel. Quanto à ela? Até hoje é conhecida como a louca das cartas. Cartas essas que foram eternizadas no parto prematuro de seu segundo livro. 





 


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page